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A Marquesa de Marvila

Aqui não se aprende nada... Lêem-se coisas escritas por mim, parvoíces na maioria das vezes mas sempre, sempre verdades absolutas (pelo menos para mim).

A Marquesa de Marvila

Aqui não se aprende nada... Lêem-se coisas escritas por mim, parvoíces na maioria das vezes mas sempre, sempre verdades absolutas (pelo menos para mim).

Bóra lá estudar!...

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Cada vez mais me convenço, e quem me conhece sabe que este não é assunto novo, que andamos (nós sociedade, nós pais e encarregados de educação) a criar adultos incapazes. Passo a explicar, as crianças e jovens de hoje são os adultos de amanhã, isto já todos nós sabemos e ouvimos vezes sem conta, e hoje tratamos as crianças como donas e senhoras do mundo.

 

Não se lhes pode dizer que não, coitadas ficam traumatizadas; Não podem ter negativas, chumbar nem se fala, coitadas ficam traumatizadas; Não se lhes pode negar nada, sob pena de ficarem traumatizadas, claro. Vejo pais e mães, a estudarem com e pelos filhos, uma ajuda eu percebo, mas estudar com e por eles?... Não percebo! Então se a criança tem maturidade para estar em determinado ano de escolaridade, suponho que a matéria dada está ao nível da sua capacidade intelectual, logo é capaz de estudá-la e apreendê-la, se não é capaz então que repita o ano pois não está ao nível cognitivo exigido pelo respectivo ano de escolaridade. Assim como percebo que tenham explicações, não percebo é que se misturem as competências parentais com as escolares. Reitero que percebo uma ajuda tipo: "Oh mãe, não estou a perceber este problema aqui..." ou, "O que quer dizer procrastinar (mais uma vez esta linda palavra, que eu adoro! Peço-vos, mais uma vez, digam-na lá em voz alta. Coisa mai linda)?" 

 

Também percebo que, perante uma matéria que não se está de todo a compreender, que por algum motivo não está a "encaixar" até nos possamos sentar com eles e dar uma ajuda mais aprofundada, caso seja um tema fácil para nós. Mas isto é pontual. Há pais e mães que literalmente estudam com os filhos e dizem: "Vou estudar matemática, eu que até era uma nulidade à disciplina e fui para letras para lhe fugir agora estudo matemática para ajudar o Joquinha, coitado senão ele não consegue!"... É impressão minha ou estamos a chamar burras às crianças? E depois, também vão fazer os testes por eles? E vão fazer os exames de admissão à faculdade? E também vão à entrevista de trabalho?... Amores da minha vida, acreditem que só não vão aos testes e aos exames porque não podem porque à entrevista de emprego há quem vá! A sério! Não me contaram, tipo eu-tenho-uma-prima-cuja-filha-da-vizinha-da-mãe-o-fez, não! Eu conheço quem o tenha feito e o contou com orgulho! E não foi um caso isolado de um tresloucado qualquer, não! 

 

E depois vocês dizem, como amigos já me disseram, "ah, mas tu tens sorte que as tuas filhas são boas alunas!". Não minhas caras pessoas giras, não tenho sorte! Uma das minhas filhas é excelente aluna, vero! A outra nem por isso. Teve explicações, passou no ano passado com uma negativa, a meio do ano foi accionado um plano contingente-emergente-urgente-ó-coiso, parecia o início de uma guerra nuclear a evitar a todo o custo, para que ela não chumbasse. Fomos chamados à escola, tivemos de assinar folhas e papéis com planos infalíveis para que ela não chumbasse, autorizações e responsabilizações e cenas malucas... rejeitámos a maioria delas, dissemos que sim a outras só para a DT (directora de turma) se acalmar, ou chamava a NATO, colocámo-la numa explicação, retirámo-la da explicação (estávamos apenas a gastar dinheiro) e tivemos uma conversa séria com ela: "Minha amiga, isto é assim, ou estudas e te aplicas ou temos chatice!..." E ela estudou, aplicou-se e deu o seu melhor! É o que exigimos sempre, que dê o seu melhor e se aplique. E dar o seu melhor, não é ser a melhor. Nós não queremos que esse seja o objectivo delas. 

 

Posso não ser o melhor exemplo de sucesso, mas licenciei-me, nunca chumbei, andei muitas vezes "na corda bamba" como a minha mãe sempre gostou de dizer, trabalhei por conta de outrem, trabalho por conta própria, e nunca os meus paizinhos estudaram comigo, limitavam-se a tirar satisfações, a impor castigos quando não cumpria e a premiar os sucessos... A única vez que alguém estudou comigo, foi uma das minhas irmãs, mais nova que eu 8 anos (ahhaahhaah!!), matemática, estava eu na faculdade, no último ano e tinha a porra da matemática pendente desde o primeiro, verdade que nunca me tinha proposto a exame, pura e simplesmente a tinha posto de parte, eu não tinha matemática desde o 9º ano, a minha irmã era da área de economia e sentou-se comigo a estudar... até me ter perguntado: "Oh gaja (sim, somos umas queridas umas para as outras), mas afinal quando é que é o exame?" e eu... "amanhã"... "fod*-se, 'tás a gozar comigo, certo?"... e eu: "Não!...", "Eh pá, esquece, vou dormir masé, não é numa noite que te vou ensinar a matéria de um ano"... E foi assim, a minha experiência com estudos familiares. Aos interessados, passei no exame, a minha irmã só acreditou quando foi comigo à faculdade verificar! E mais uma vez os meus pais não interferiram, nem souberam de nada, apenas que eu tinha passado a matemática e terminado o curso, ou quase ainda faltava a tese, essa querida!

 

E depois vemos nas reuniões de pais posições verdadeiramente chocantes, uma falta de confiança na escola, nos professores, nos filhos, pais que sabem a matéria toda que os filhos estão a dar, pais que fazem os trabalhos dos filhos, pais que tentam ensinar os professores a melhor forma de ensinar, pais que ignoram totalmente os apelos dos professores para que os deixem ser autónomos, para que não façam fichas em casa com eles, para que não façam os TPC por eles... Os putos podem portar-se mal, ser mal-criados, desrespeitarem tudo e todos pois os pais estão lá para dizer amém a tudo o que as suas crias fazem. Eu, há coisas que não sei nem quero saber sobre a escola e os professores e a interacção entre alunos e professores, é um tema deles, a escola tem de ser capaz de lidar com os seus problemas, temos de legitimar os professores e as escolas para que possam cumprir a sua função educativa. Nós, pais, em casa temos a nossa, que não é, certamente, a de estudar com e por eles, a de fazer os trabalhos por eles.  A única coisa eu eu quero, e exijo, saber da escola é se as minhas filhas não se portarem bem ou não cumprirem e não é para lhes passar a mão no lombo a dizer "coitadinhas", não, é mais uma vez para as responsabilizar (sosseguem que não é para lhes passar a mão no lombo nem no bom nem no mau sentido!).

 

Antes que se exaltem, esta é a minha perspectiva, não estará certa nem tampouco errada, é só a minha opinião. Não faz de mim melhor mãe, mas sim na mãe que dá às suas crias aquilo em que acredita: Autonomia, responsabilidade, confiança! Se erro? Sim, imenso! Muito mesmo! Sou a melhor e a pior mãe de sempre. Enquanto elas me disserem que sou a melhor mãe do mundo intercalado com um "odeio-te, és a pior mãe do mundo" sei que estou no caminho certo! Mas isto sou e são elas... Admito, aceito e gosto até, que haja quem pense diferente, e um dia posso até mudar de opinião (sobre este tema tenho as minhas dúvidas, mas pronto...).

Ps. Refiro-me a crianças saudáveis e sem qualquer constrangimento cognitivo, social ou psicológico.