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A Marquesa de Marvila

Aqui não se aprende nada... Lêem-se coisas escritas por mim, parvoíces na maioria das vezes mas sempre, sempre verdades absolutas (pelo menos para mim).

Foste uma merda na minha vida!

Já o devia ter feito há mais tempo... mas faço-o agora! Nunca é tarde, dizem os antigos.

Vivi toda a minha vida presa na tua rede, nunca tive coragem de to dizer na cara, agora também já não vale a pena... já cortámos uma grande amarra, a da comunicação. Mais uma vez, por decisão tua! Nem isso me permitiste ser eu a fazer... foste tu, quem resolveu deixar de me falar. Tens sempre que ficar por cima, não é? Não to dizer na cara não me impede de to dizer desta forma, virtual, e a partir de agora cortar a maior amarra, a que me tem prendido a ti desde sempre, desde que me lembro de mim, aquela que não me deixa voar, aquela que, mal ou bem, está presa pelas emoções.

Foste uma merda na minha vida! Aliás, tens sido uma merda na tua própria vida, mas isso é um problema teu! És tu quem tem de o resolver. És tu quem tem de viver contigo, não eu! Fui obrigada, durante quase toda a minha vida a viver contigo, nas tuas amarras, nas tuas garras, manipulando-me, usando-me para atingires os teus objectivos... humilhando-me apenas para te sentires bem, importante, para te sentires alguém! 

Utilizaste toda a tua patranha, toda a tua manha, as tuas falas mansas, a tua tática de ataque e recuo, de esfaquear e fazer o curativo, para me minimizares, para que eu nunca fosse ninguém na vida! Disseste-o tantas vezes, ainda te consigo ouvir a voz: "Tu nunca serás ninguém na vida!"... foram das primeiras palavras que ouvi tuas, ouvi-as toda a minha vida de criança, de adolescente, de adulta... até te ter fechado a porta! Até te ter dito, já não me enganas! E tu, após mais uma tentativa de volte face, de tentares pôr os outros contra mim, como sempre fizeste toda a vida, e de não o teres conseguido desta vez optaste por deixar de me falar. És cobarde! Cobarde como só um cobarde sabe ser! Nem coragem tiveste de me enfrentar quando viste que já não conseguias ter o resto da malta do teu lado!

Foste uma merda na minha vida! Toda a minha vida! Ali, sempre, a pairar, a assombrar, a humilhar, a gozar, a diminuir, a mentir... nunca te apiedaste, mesmo quando apenas vias à tua frente os olhos amedrontados e desesperados de uma criança! Sim, eu era apenas uma criança! Nunca tiveste dúvidas quando me apanhavas sozinha, criança apavorada, e me ameaçavas, me fazias sentir uma merda, enganavas quem eu amava, gozavas comigo, dizias que eu era feia, que parecia um palhaço com aquela roupa, que o cor-de-rosa me ficava mal, assim como o amarelo, apenas e só porque sabias que eu gostava dessas cores... conseguiste que eu deixasse de ter uma cor favorita!... assim não haveria cores proibidas na minha roupa. O meu cabelo era horrível, dizias tu!, a minha avó arranjava-me cortes de cabelo medonhos, dizias tu, até que acabavas por me levar ao teu cabeleireiro e me obrigavas a usar os cortes de cabelo mais embaraçosos, humilhantes de todo o sempre para uma adolescente... nesses momentos eu ia para a escola encolhida, envergonhada, humilhada... mesmo assim tive sorte! Ou fui esperta... contei sempre aos meus amigos e colegas o porquê daquele penteado e assim ninguém gozava comigo mas sim contigo! Ninguém gostava de ti! Nenhum dos meus amigos e colegas te suportavam!... ainda hoje, quando encontro alguém que já não vejo há alguns anos, uma das primeiras coisas que me perguntam é por ti... quando respondo que não nos falamos, que já não fazes parte da minha vida, um sorriso honesto e sincero sai daquelas caras com um: Ufa! Ainda bem! Fico tão feliz!... porque quem gosta de nós alegra-se quando estamos bem! Porque quem gosta de nós alegra-se com os nossos sucessos!

Tu foste uma merda na minha vida! Não quero que me peças desculpa, jamais! Eu não iria acreditar nas tuas palavras, não seriam sinceras... eu iria apenas olhar em meu redor e tentar perceber qual era o patamar, a coisa ou quem tu querias conquistar desta vez, e mais uma vez à minha custa! Tu usaste-me toda a vida!

Passaste por cima de mim como se eu fosse transparente, como se eu não existisse. Atiraste-te sempre ao que querias sem olhares a quem atingias. Fui a tua vítima favorita! A mais fácil, a mais frágil e a mais valiosa também! Sabias bem que se me tivesses na mão, e tiveste toda a vida e sempre, conseguirias atingir tudo o que ambicionavas... e conseguiste! Mas a vida é tramada... fodida mesmo! E, voltamos aos antigos, quanto maior a subida maior a queda! Esbardalhaste-te por aí a baixo aos trambolhões... hoje estás muito só! Tens pouca gente à tua volta! Gente que te ame genuinamente sabes bem que só tens uma, e sabes bem porquê!... às vezes tenho pena de ti! Verdade! Pena genuína... deve ser tão triste!... há quem diga que tu és doente! Há quem diga que foste possuída por espíritos maus!... eu acho que tiveste uma vida de merda, sem nenhuma auto-estima, sem capacidade de realização, cuja única forma de atingir o nível de vida que pretendia era pisar os outros, que só se sentia importante se esmagasse alguém, que só se sentia bem se humilhasse uma criança... sim! Eu era uma criança, lembras-te?... indefesa, amedrontada, apavorada!

Foste uma merda na minha vida! Eu fazia tudo para te agradar, tudo! No meu pavor eu só queria  a tua aprovação, só queria que me dissesses que gostavas de mim... sabes quantas vezes na minha vida tu me disseste que gostavas de mim?... Nenhuma! Nunca! Ainda hoje me questiono... apesar de tudo será que gostaste de mim? Pelo menos um pouco?... eu gostei de ti! Eu era uma criança indefesa, amedrontada, apavorada, sozinha, que precisava de gostar de ti... e, apesar de tudo, gostava!... há coisas que só um coração puro de uma criança consegue, não é?

Foste uma merda na minha vida! Mentiste sobre mim, inventavas histórias sobre mim, falavas mal de mim, só e apenas para que ninguém gostasse de mim!... conseguiste! Parabéns! Conseguiste que tios, tias, primos e amigos adultos não gostassem de mim! Eu, uma criança!... tu fizeste-os acreditar que eu era má para ti, que te tratava mal, que tu eras uma santa por me aturares... eu, uma criança que fazia tudo para te agradar! A ti e a todos a quem tu mentias e manipulavas!... eu, uma criança que apenas procurava amor e aprovação!... 

Foste uma merda na minha vida! Fizeste com que cada dia, logo pela manhã, fosse uma ansiedade, uma incerteza, sem saber se era dia me tratares bem, de forma a manipulares alguém, de forma a me manteres manipulada, ou se seria dia em que nem me falavas (apenas o fazias se estivéssemos na presença de outras pessoas) e em que me irias assustar, humilhar...

Foste uma merda na minha vida! Chorei tanto por tua causa... talvez por isso hoje não tenha lágrimas!... talvez por isso esta minha doença mas tenha secado!... o Universo, seja de que forma foi, achou que eu não merecia chorar mais... mas ainda choro, só que sem lágrimas! Foste uma merda tão grande na minha vida que até as lágrimas me tiraste!

Foste uma merda na minha vida! Lembras-te quando me fechavas no quarto escuro, numa casa que eu não conhecia, eu a chorar de medo, e tu a dizeres, "cala-te! São horas de dormir!"?.... eu com medo! E tu, no teu sadismo ainda me contavas histórias de almas penadas, fantasmas e outros que tais!... contavas-me na primeira pessoa, como se se tivessem passado contigo para dar ainda mais credibilidade!... e eu, criança pequena, com medo de dormir... passei horas, noites acordada! Eu, criança pequena, sozinha, assustada, com medo!

E tu dizias-me sempre, de forma jocosa, com um sorriso de gozo profundo, com escárnio: Tens medo de tudo... E tudo piorava quando o fazias, constantemente, em frente às outras pessoas, fossem adultos ou crianças, como eu!... e tudo piorava quando o fazias para os outros como se eu não estivesse ali... adoravas humilhar-me como se eu não estivesse presente, a ouvir tudo!... e eu, uma criança, incapaz de me defender!

Foste uma merda na minha vida! Lembras-te quando, já jovem adulta, voltei de um fim-de-semana e tu tinhas deitado fora, vendido, o que fosse, a mobília do meu quarto e lá puseste uma outra já usada apenas porque querias remodelar a outra assoalhada?... e eu, jovem adulta, sem ser tida nem achada no assunto! Com um total desprezo pela minha pessoa!... cheguei e tinha a roupa, os livros, tudo o que era meu espalhado pelo chão para arrumar... Foste uma valente merda na minha vida, caraças!

Foste uma merda na minha vida! Recordas-te das vezes em que me dizias, directa ou indirectamente, e por indirectamente entenda-se de quando falavas alto e bom som para outras pessoas sobre mim (era o teu passatempo favorito!... com amigas, família, amigos meus, funcionários de lojas!... sim! Até com os funcionários de lojas, caraças!... que olhavam para mim condescendentes, com pena, sem saberem o que dizer ou fazer... hoje, alguns, teriam feito queixa tua! Isto era violência infantil!), "Não fazes nada de jeito!... não tem jeitinho para nada esta miúda!... nunca vais ser ninguém!... a sério?!?... nem isto consegues fazer?!... só faz más escolhas! Os amigos dela são uma desgraça!... só se dá com gente que não interessa (nunca soube o que é gente que não interessa!... mas tu dizias isso constantemente!)...". Isto tudo dito, sempre, de mão na cabeça, em desespero (ias bem para o teatro!), ar de gozo, sempre de forma jocosa, maléfica e de peito inchado! Sempre tiveste o peito inchado, caraças! Achaste-te sempre a última bolacha do pacote, o supra-sumo da inteligência, o pináculo do ser humano, tu lá em cima e todos os outros a rastejarem aos teus pés... era assim que eras, era assim que vias o mundo!... ainda hoje deves ser assim... mas hoje também não me interessa!

Foste uma merda na minha vida! Quando não me compraste presente de Natal porque não tinhas dinheiro, e enchias a árvore de todos os produtos mais luxuosos, para ti e para os teus! Quando apenas me ofereceste um par de calças e na árvore estavam presentes cujo valor ascendia aos 4 dígitos, e o primeiro não era um 1, nem um 2, nem um 4... dinheiro era coisa que jamais te faltava!... nem que tivesses de o roubar!... E isto era no Natal, na Páscoa, no Carnaval, nos Aniversários... afinal o Natal era sempre que tu querias, verdade? Também me deste bons presentes! Sempre nas alturas em que eu já estava quase a cair do precipício e tu ias lá buscar-me... não podias ficar sem mim, não era? E aí sim, vinham os sapatos de 3 dígitos, os casacos que custavam pra lá de um ordenado mínimo... nunca soubeste comprar barato, disseste-me tu uma vez, com o teu ar de gozo! Fazias sempre questão de me dar os presentes com a etiqueta do preço, sempre! Para eu saber o quanto valia a minha humilhação! Entregavas, com um sorriso de escárnio nos lábios e obrigavas-me sempre, mas sempre, a dar-te um beijo e a dizer: Obrigada!... às vezes tinhas um ritual, levavas-me contigo às compras e se entrássemos em 10 lojas diferentes e se em cada uma delas me comprasses qualquer coisa, nem que fosse um chocolate, ou o lanche, mal saíamos, logo à porta, eu tinha de te dar um beijo e dizer "Obrigada!"... humilhação?!... loucura?!?... prazer?!?... tudo junto! Tudo junto!

Foste uma merda na minha vida! Chegar ao pé de ti, fosse logo pela manhã, à tarde ou à noite, significava ouvir um: Estás com tão má cara!!!... Estás amarela!... Tens olheiras que metem medo!!... e esse cabelo? O que lhe aconteceu?!?... vais assim vestida para a rua?!... esta miúda está doente! Esta miúda tem de ir ao médico!... todos os dias! Desde que me lembro de mim, a primeira palavra que ouvia tua era de humilhação!... eu, uma criança apenas, a quem tu um dia disseste, e como viste que resultou repetiste durante o resto da vida, "Esta miúda foi possuída por um espírito mau! Esta miúda tem de ir à bruxa!"... como é que uma criança dorme a saber que foi possuída por um espírito mau, caraças? Como?!?!

Foste uma merda na minha vida! Sabes que às vezes o que doía mais nem eram as tuas palavras, eram as tuas respostas silenciosas a algo que eu havia dito, sempre na presença dos outros, e sempre com o teu sorriso de escárnio... quando me ignoravas de propósito, deixando-me a falar sozinha! Ou quando respondias para o lado, para quem estivesse ao pé de ti, sempre com o teu sorriso de escárnio, "Eu nem digo nada!", ou "Oh! Meu Deus!".... esse Deus que tu dizes acreditar...

Em todas as etapas da minha vida tu me disseste: "Esquece! Tu não vais conseguir!"... e eu sempre acreditei nisso! Sempre consegui, apesar de tudo, mas sempre com a bitola muito baixa! Sempre a fazer escolhas seguras que não me permitissem falhar. Nunca quis voar alto pois sempre soube que nunca iria conseguir lá chegar! Tu fizeste sempre questão que eu soubesse que não ia conseguir! Parabéns! Foste um sucesso! Conseguiste garantir que eu não tenha sido "ninguém", que nunca tenha tido sucesso, que eu nunca tenha conseguido!

Foste uma merda na minha vida! Durante toda a vida que vivi contigo desejei poder ser maior de idade, independente e sair de casa!... juro-te, todos os dias dou graças aos santos, não ter tido de fazer uma quarentena quando era miúda, contigo na mesma casa... não teria aguentado!

Foste uma merda na minha vida! Lembras-te quando me obrigavas a perguntar-te sempre se podia comer?... de não me poder servir à vontade da comida que havia em casa... de esconderes de mim alguma comida mais valiosa ou que sabias que eu gostava mais e, como criança que era, podia comer tudo... tipo chocolates! Quando compravas doces ou um bolo e dizias que era para oferecer, só para eu não lhes tocar... eu era uma criança! Uma criança!

Foste uma merda na minha vida! Lembras-te quando me dizias, "ou bem que arranjas um homem rico para casar ou estás feita!...". Eu, para ti, era uma merda! Mas uma merda muito valiosa!... daquelas que te valeram viagens a sítios caros, roupa cara, restaurantes chiques, casas de sonho. Perderes-me foi perderes tudo isso!... só agora, que te escrevo, o noto!... mas tu já sabias! Tu fizeste uma última tentativa desesperada de me agarrar antes de afogares... e eu quase caí novamente nas tuas garras... mas, felizmente não caí! Não caí porque, afinal eu já não era aquela criança, já não precisava do teu amor, nem de ti para sobreviver. Porque tu jogaste o mesmo jogo de sempre, e desta vez não resultou e foi aí que deixaste de me falar... atraíste-me com o teu mel para logo de seguida me tirares o tapete, como sempre fizeste, mas desta vez não resultou!... confrontei-te! Abri a cortina e falei a quem tinha de falar e quando tu lá chegaste com as tuas queixas e sorrisos jocosos e lágrimas de crocodilo já estavas desmascarada!... não resultou! Deixaste de me falar, não por raiva, não por vingança, mas porque sentiste que eu te tinha traído! Estavas a castigar-me!... só que desta vez eu não recuei! Já lá vão uns valentes anos sem nos falarmos!... mas tu continuas a amarrar-me! Eu continuo presa nas tuas teias, nas tuas garras... porque tu fizeste bem o teu trabalho! Tu conseguiste que eu acreditasse mesmo que sou uma incapaz! Que jamais serei alguém na vida!

Não quero que me peças perdão! A única coisa que eu quero tua é que me deixes em paz! Deixa-me!

Foste uma merda na minha vida até hoje! Foram precisos 4 anos de terapia para, finalmente, perceber e alguém me dizer, com todas as letras: "Você foi vítima de violência infantil!... e isso é duríssimo!". A violência infantil não é apenas física... a minha não foi, apesar de doer fisicamente, e muito!... sabem lá as dores que tenho nas costas enquanto escrevo isto, caraças! Eu sofri abusos, que não foram físicos nem sexuais, e nunca ninguém quis saber!... até hoje! 

Hoje escrevo-te estas palavras porque foste uma valente merda na minha vida, mas já não és! Eu escolho, com todas as minhas forças, abraçar-me, acarinhar-me, amar-me e permitir-me ser feliz, ter sucesso, e conseguir! Eu escolho ser alguém na vida!

Adeus!

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