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A Marquesa de Marvila

Aqui não se aprende nada... Lêem-se coisas escritas por mim, parvoíces na maioria das vezes mas sempre, sempre verdades absolutas (pelo menos para mim).

Sou uma mulher à moda antiga

Eu cá sou uma verdadeira mãe de família, assim no verdadeiro termo da palavra... uma mulher à moda antiga, mesmo! Uma mulher com M grande!!!

Fui educada pela minha querida avó, pessoa que se não tivesse falecido, teria hoje 95 anos. Mulher com um M maior do que o meu, que começou a trabalhar numa fábrica aos 10 anos e por lá trabalhou toda a vida, mesmo após casada, mesmo após ter sido mãe e de ter pedido a sua filha ainda criança, mesmo após ter sido mãe pela segunda vez, mesmo após ter tido uma neta que se lhe alapou às saias mal nasceu e que com ela ia para a fábrica, bebé pequena, miúda se fez naquela fábrica, mesmo após o meu avô ter morrido e com ele ela ter desejado ir... só deixou a fábrica pela saúde que se lhe faltava. Mas não largou a neta, euzinha, e a ela se dedicou dia e noite até morrer.

Vivi com esta Mulher desde que nasci até aos meus 21 anos, quando ela decidiu que estava na hora de ir ter com a sua filha e com o seu marido. A ela devo tudo o que sou, tudo o que sei mas, principalmente a mulher que sou.

Ai caneco, tu és a mulher que qualquer macho gostaria de ter, vero?... Hummmm.... depende!.... se for macho que goste de fazer tarefas domésticas, ir ao super-mercado, beber umas minis comigo e um belo vinho branco, que goste de partilhar os tremoços e as azeitonas, que considere a tarefa de dar banho, biberão, mudar fraldas como parte integrante de ser pai, então sim! Sou mesmo um sonho de mulher para qualquer macho!...

Sou uma mulher à moda antiga, pelo menos à moda que a minha avózinha me ensinou! Sempre, mas sempre me ensinou a ser independente: "Ai, filha, não há nada pior do que dependeres de um homem!", sábias palavras, caneco!, a estudar, a ler (sim, a minha avó era mulher que lia, apesar de apenas ter a 4ª classe não dava erros e era culta), a ver telejornais, a ler jornais.... lembro-me, com especial orgulho, do fascínio que eu sentia quando a via a ler o jornal (coisa que fazia todos os dias), ela era a única avó que eu conhecia que lia jornais, que discutia política e futebol com os homens da família. Sportinguista dos 4 costados, Orientalista de coração e bairro (falei sobre isto no Instagram... quem não me segue no Instagram é um ovo podre!!! Não sei se já vos tinha dito isto.), sabia os nomes dos jogadores, presidentes, directores, discutia com o meu pai as estratégias do presidente, as táticas do futebol... e eu a ouvi-la fascinada! Claro que sou do Sporting desde nascença... acho que ela me teria trocado por outra lá na maternidade se eu não fosse... ninguém iria dar por isso, claro!

A minha avó chateava-se comigo para eu estudar, "vá, que é para não ires parar a uma fábrica como eu! Uma mulher sem estudos não é nada!... tens de ler, tens de saber os rios todos de Portugal, os caminhos de ferro, serras, Distritos, onde e como nasceu Portugal, presidentes, primeiro-ministros, tudo!" Matemática? "Importantíssimo, minha filha! Quem é que te vai fazer as contas?".... e assim fiz! Estudei, com alguma preguiça é certo, mas licenciei-me!... isso ela já não viu, mas morreu a saber que eu nunca tinha chumbado e que se quisesse era boa aluna! Morreu a saber que ler era, para mim, a melhor coisa do mundo! Morreu, com a certeza, de que eu não dependeria de nenhum homem... (o meu pai não conta, vale?)

A minha avó ensinou-me a ser mulher! Nunca me ensinou a estrelar um ovo, nem a aspirar, passar a ferro, limpar... nunca! Levava-me o pequeno-almoço à cama, sempre! Enquanto as forças lhe permitiram, ela acordava-me sempre com o pequeno-almoço e beijinhos! Tão bom!!!!

Nunca adorou ir ao cabeleireiro, tal como eu!, mas andava arranjada, pelo menos enquanto as forças lho permitiam! E dizia-me: "Filha, as pessoas têm de ter brio! Têm de estar limpas e arranjadas! Tu nunca te interesses por um homem porco e que não tenha brio em si!".

Não me ensinou a costurar, também não era coisa que fizesse, não me ensinou a cuidar de uma casa (para ela era óbvio que uma casa tem de se manter minimamente limpa), não me ensinou a bordar, mas ensinou-me a ouvir música, não me ensinou a pôr-me bonita para os outros mas sim para mim, não me ensinou a brincar com bonecas mas ensinou-me a saltar à corda e a jogar ao elástico... aliás, eu nunca adorei brincar com bonecas mas delirava com os carrinhos que ela tinha guardado do meu pai... E ela dizia-me, "filha, não faças como eu... tu tira a carta de condução!". E tirei, assim que tive a idade legal para o fazer... ela viu, e ela andou de carro comigo, e eu levava-a ao médico, a passear, e ela dizia: "Vai mais devagar... não me enerves! Da próxima vez não venho contigo!"...

Ela não me ensinou a cozinhar, nem a lavar roupa, nem a esfregar o chão e dizia-me: "Filha, tu arranja um homem que goste de ti e não faça de ti criada! Tu põe os olhos no teu padrinho, o homem lava, passa, cozinha, faz tudo tal como a tua madrinha! Se o teu avô fosse vivo ele não me iria deixar estar aqui a cozinhar e a esfregar o chão (coisa que ela fazia de joelhos no chão, balde, água e sabão... pela casa toda! Eu ajudava-a, mas ela nunca queria... dizia sempre: Está quieta, só me atrapalhas!)".

A minha avó era uma mulher com M grande e fez de mim uma mulher à moda antiga! Educada por ela, uma mulher antiga, com regras antigas, baseada na sua educação antiga!

Hoje eu sei cozinhar, aprendi sozinha e muitas vezes lhe liguei (de casa da minha mãe, quando lá estava) a perguntar como se fazia isto ou aquilo. Hoje sei lavar roupa (ou melhor a máquina sabe), sei ir ao super-mercado, sei limpar o pó, aspirar e até fazer bolos! Casei com um homem com brio, asseado e que faz tanto ou mais do que eu nesta casa. Temos os dois as mesmas responsabilidades cá em casa! Que gosta de mim e do qual não dependo! Ela iria ter orgulho em mim!

Obrigada avó por fazeres de mim mulher!

2 comentários

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    amarquesademarvila 26.04.2019 15:01

    Obrigada!
    Beijinho
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