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A Marquesa de Marvila

Aqui não se aprende nada... Lêem-se coisas escritas por mim, parvoíces na maioria das vezes mas sempre, sempre verdades absolutas (pelo menos para mim).

A Marquesa de Marvila

Aqui não se aprende nada... Lêem-se coisas escritas por mim, parvoíces na maioria das vezes mas sempre, sempre verdades absolutas (pelo menos para mim).

A minha Lisboa quase perdida...

Publiquei este post originalmente há umas semanas, para o desafio lançado pela Happy, e que podem ler aqui. No entanto, gostei tanto deste texto e do escrever que fiquei com pena que ficasse por ali perdido num desafio. Achei que ele merecia mais uma oportunidade pois  levou-me à minha infância e a uma Lisboa quase perdida. Espero que gostem.

 


Voltamos à minha infância! De vez em quando é bom lá voltar, recordar, sentir de novo algumas emoções, cheiros, cores, sons e pessoas...

Os meus brinquedos favoritos na infância eram:

Eu brincava imenso da rua, vivia em Lisboa, numa Vila, conhecia todos desde que nasci, éramos como uma "família" gigante. Havia miúdos da minha idade e brincávamos na rua. Na vila, onde todos se conheciam, era comum lancharmos em casa uns dos outros, passarmos lá o dia, em dias de chuva, e ouvir ao longe mas suficientemente alto para nos pôr a correr para casa: - Oohhhhhh Paaaauuuullllo (ou outro nome qualquer), anda para casa!; E um de nós dizia: - A tua mãe está-te a chamar; Caso ele(a) não reagisse imediatamente ao chamado.

Brincávamos às escondidas, à apanhada, andávamos de patins, tínhamos um parque infantil, construído pelos moradores, com baloiços, escorrega (que queimava o rabo às meninas que se atreviam a descê-lo de saias. Era de metal e apanhava sol toda a tarde... Um mimo!), balancé, tínhamos um ringue, para jogar à bola, saltar ao elástico, andar de patins e fazer bailes de Santo António em Junho. Esta era a altura do ano mais esperada por todos nós. Altura em que ajudávamos os adultos a acartar, montar, vender, em que ficávamos a pé e na rua até à 1 da manhã... A nossa maior ansiedade era saber se ia haver baile. Em Maio, andávamos atrás dos adultos a perguntar: Este ano há baile? (houve anos em que não houve... cenas de adultos que não se chegavam à frente para tratar de tudo), e a nossa maior alegria era ver o toldo a ser montado (um dia deixou de haver toldo, os moradores construíram um telhado de chapa para que pudesse haver baile todos os anos)... Nesse momento um de nós corria a avisar todos os outros: - Vai haver baile!!!! Yeahhhhhh!!!!!

Tínhamos as "terras", sim era terra mesmo, jogávamos ao berlinde, saltávamos à macaca, andávamos de bicicleta. Foi nas "terras" no meio de pedras, pedregulhos, terra e desníveis que aprendi a andar de bicicleta com a ajuda do meu tio-avô.

Havia cães, osgas, cobras e lagartos. Sim, cobras em Lisboa! Só vi uma, mentira... duas, uma viva e outra que o meu cão fez o favor de matar e trazer para casa de presente. Como nós, os cães também eram livres, iam à rua sem ninguém a prendê-los, ladravam a desconhecidos (e alguns a conhecidos ) e tomavam conta da vila e do seu pessoal. Havia gatos também, e alguns cães tentavam dar cabo deles... Havia zaragatas de cães e gatos e de pessoas também.

Todos vinham ver quando havia zaragatas, uns tomavam partido de uns e outros de outros e às tantas estava tudo a gritar, uma festa!!! Nós, crianças, riamo-nos e mesmo quando os adultos nos tentavam incluir nas suas zaragatas nós não deixávamos.

Havia "figuras", "personagens" e "momentos" únicos... Como o dia em que um vizinho, após um tremor de terra (que ainda deitou abaixo uma chaminé e fez aquilo abanar tudo) foi para o carro ler o jornal e de lá não saiu todo o dia. Ninguém sabe porquê... Uns diziam que estava bêbado, outros que era doido, outros nada diziam... Ele lá deverá saber porquê, eu não!

Havia o padeiro, nunca soube se era só alcunha ou se vendia mesmo pão, porque se o fazia era longe da vila, e era ele quem matava tudo o que era cobra que aparecia por lá;

Havia o "dos plásticos", que vendia plásticos e tinha uma carrinha sempre cheia de alguidares, baldes e caixas;

Havia o "das pedras" que vendia e trabalhava o mármore;

Havia o "do papagaio" que era o feliz proprietário de um papagaio que morava à entrada da vila e dava conta de tudo;

Havia a senhora (que não vou dizer o nome) que vendia refrigerantes e alguns acepipes (não, não eram ilícitos) tais como batatas fritas, codornizes fritas e caracóis à janela... Ainda não havia a ASAE. E, à janela também, cosia meias;

Havia a mulher que morava sozinha e que assustava tudo o que era criança naquela vila, ninguém se atrevia a passar à porta dela, corriam boatos de que ela batia e podia mesmo matar crianças... Não há provas disto mas o nosso medo era real. Um dia ela passou por mim e disse-me "olá" e eu desatei a correr para casa como se não houvesse amanhã... Quem sabe se eu lá tivesse ficado não houvesse mesmo... Agora que penso nisso talvez esteja na hora de agradecer às minhas pernas estar hoje aqui a escrever este post;

Havia os que não se falavam e ninguém sabia porquê, acho que nem eles;

Havia a "desgraçada" que acabava sempre com um vidro partido por uma bola, mas havia sempre um "jeitoso" que lá ia colocar-lhe um vidro novo;

Havia casas de banho construídas em cozinhas por um vizinho que tinha jeito para a construção mas cuja profissão era motorista;

Havia ainda o cão gordo, que dormia longas sestas ao sol, à porta de casa e que me ladrava, como se me quisesse matar (ele queria, eu sei que ele queria) e eu, quando vinha da escola, antes de passar por ele (mas à vista e boca de semear dele), gritava pela minha avó ou por alguma vizinha... É claro que se houvesse alguém à janela o cão não me iria morder, parece que são parvos... O cão, de gordo e preguiçoso que era (não vou dizer o nome dele, que ainda hoje sei, porque respeito a privacidade do bichinho) só ladrava mesmo quando alguém passava por ele, podíamos estar a 2 ou 3 metros antes dele, mas ele só ladrava quando por ele passávamos;

Havia momentos de tédio, em que não estava ninguém na rua e em que um de nós aproveitava para comer um gelado sentado à porta (não fosse aparecer alguém) e a dividi-lo com o cão... ora lambo eu ora lambes tu... Não fui eu, mas fui a primeira a chegar e a assistir à cena;

Havia os tanques de lavar roupa e os estendais na rua, e havia sempre uma vizinha que gritava "Oh vizinhaaaa, está a chover..." para que todos pudessem ir apanhar a sua roupa antes do dilúvio;

Havia a vizinha que criava coelhos e galinhas, os que tinham uma hortita com 2 ou 3 couves e 1 alface;

Havia duas escolas, a escola do "padre" e a escola 20. Claro que a escola do "padre" não se chamava assim, deve-se esta "alcunha" ao seu proprietário ter sido um padre que abandonou o sacerdócio por amor (a nossa vila tinha histórias de amor dignas de Eça de Queirós), e eu fui aluna da sua mulher, a professora primária. Hoje a escola está fechada, tal como a escola 20 que hoje é um espaço hipsterócoiso, com cenas "culturais" (sem desprimor para o que lá se faz mas com muita tristeza pelo desprezo sociológico-cultural e patrimonial daquele espaço). Estas duas escolas partilhavam o mesmo palácio. Sim, a nossa vila tinha um palácio com azulejos maravilhosos, que está tristemente abandonado e a cair. Ainda hoje consigo sentir o cheiro da minha escola, daquele palácio.

Havia união e solidariedade em tempos de crise, quando a doença, a morte ou qualquer outra desgraça se abatia sobre uma das nossas famílias, mesmo quando as famílias andavam zangadas;

Havia a catequista que, para além da catequese na igreja, dava aulas privadas de catequese em casa;

Havia mexericos, boatos, beatos, bêbados, puros, inocentes, arreliados, gentis, zangados, tristes e alegres, porque havia pessoas. Pessoas genuínas com quem eu tive o gigante privilégio de ter partilhado a vida, experiências e aprendizagens...

Havia sempre a possibilidade de por ali andarmos, mesmo que os nossos pais não estivessem em casa, ou porque foram trabalhar ou porque foram às compras, que havia sempre, sempre quem tomasse conta de nós;

E havia sempre a certeza de estarmos bem entregues, seguros e felizes.

Havia o maior castigo de todos e pergunta feita a medo, com pânico da resposta: Posso ir brincar para a rua?... O castigo já vocês sabem qual era... a resposta: Não!... Aqui havia sempre um de nós que se munia de tudo e ia pedir, suplicar se fosse caso disso, ao pai/mãe/tia/avó, que deixasse aquele de nós ir brincar para a rua. Nenhum de nós brincava feliz se outro estivesse em casa de castigo. E quando o pai/mãe/tia/avó, era irredutível, o de nós que estava de castigo ficava à janela e os outros brincavam ali perto, numa partilha.

Digo havia, com muita tristeza, porque hoje já não há! A vila ainda lá está, sem parque infantil, sem ringue, sem bailes, quase sem pessoas e sem crianças... Um legado cultural que está destruído, um espaço que está a aguardar ficar totalmente devoluto para, provavelmente, ser vendido e ali se fazer mais um mega condomínio... E assim se enterra um pouquinho do que é, também, ser Lisboeta.

Claro que tinha brinquedos, mas ficavam em casa, excepto o elástico, os patins e a bicicleta... Também tinha uma trotineta e esta ia para a rua comigo.

Claro que, a esta hora, se houver por aí alguém que me leia e tenha vivido nesta vila sabe bem a que vila me refiro, só não sabe quem eu sou! E, caso me estejam a ler, quero que saibam que vos sou eternamente grata por terem feito parte da minha vida.